Carta A LOPES - Parte 2
Caro Leafar,
Parece a mim possível viver sem arte alguma. Não poderia ser evitado, obviamente, o amargor do olhar vazio que chega ao fundo da alma. Tudo cinza. Como uma foice no deserto. Nada a colher. Melhor mesmo é partilhar a esquisitice com os baudelaires da vida.
Não se cobre tanto. Há pouco tempo fiquei elucubrando minha postura e descobri que tornou-se piegas ser algoz de si próprio. Vou deixando os dias passando como numa nouvelle vague, mas sem transgredir tanto.
No vórtice de minha insanidade cobrei minhas grandes realizações. Elas não vieram ainda. Supliquei mais participação no universo dos outros, mas mesmo o mais nobre sentimento é circunstanciado. Vou beirando os trinta com o mesmo sarcasmo de sempre, que ao invés de minar minha energia, torna-me um senhor mais tolerante. Será que é regra para todos aquele lance de plantar uma árvore, procriar e escrever um livro? No ritmo cadenciado que estou, vou ter que usar a polpa da bendita árvore para fazer o tal livro. A parte de "crescei-vos e multiplicai-vos" eu prefiro adiar. Talvez um dia eu faça um download em alguma.
Deus ou qualquer outro ser imaginário nos dê força para trilhar nossa rotina pouco ensaiada.
Vou fingir que tudo é incerto para ser fiel ao expressar meu contentamento diante das surpresas.
Abraços do amigo,
Lopes


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