Carta A LOPES - Parte 1
A LOPES
Meu caro amigo,
Peço-lhe desculpa pelo tempo na obscuridade da distancia. Pela atenção não dispensada. Por todas as penas imputadas ao desconhecimento de meu paradeiro. Sinto-me torpe frente à feliz presença de sua lembrança, ou até mesmo pelo sonho desse pensamento.
Tenho percebido, ainda que à distância de minha necessidade de verdade, que não caibo em mim, de tanta insatisfação. Tenho pouco de tudo, e de muitas coisas tenho nada. Às vezes é apenas no limiar da jornada que conseguimos perceber que nada fizemos, ou o quão pouco caminhamos. Ando descobrindo que sou tosco nas coisas que faço ou exijo muito de mim? Não tenho sabedoria para perguntas tão tolas. ...e quanto isso dói...
Procurei nas menores coisas e tive a impressão de nada ver. Procurei nas grandes e apenas vultos borravam o horizonte. Alguns destinados a grandes coisas que para mim parecem tão pouco. E talvez aqui destinados a coisas tão pequenas, para alguns tamanhas, eu e todos? Tudo parece tão simples e tão sóbrio. Vejo com tanta clareza o fim da fome, da miséria e do terror. Então o que está tão errado?
Dispenso muito do meu tempo às pessoas. Sejam desse plano ou do outro. Pinto minha vida com os tons dos grandes mestres. Seja minha percepção triunfada pela música, pela pintura, pela poesia, pelo cinema, pelo espetáculo... é tudo uma questão de sensibilidade. Verdade é que esses caracteres a definir tornam a vida mais bela.
Seriamos melhores sem o céu de Monet? Sem a poesia de Beethoven? Sem as pinturas de Kubrick? Sem as certezas de Drummond? Sem a sanidade de Raul? Sem os textos juvenis de Freud? Ou talvez isso tudo seja placebo para uma sociedade tão pueril...
Mas poderia ser como Plant profetizou, “para sermos rocha e não rolarmos”...
Do Amigo
STORTO...


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