Estar Só




Eu gosto da sensação da cidade à noite, depois das duas da manhã.
Gosto das cores, dos letreiros, da temperatura.
Gosto do cachorro vagueando transversalmente a pista sem a preocupação dos carros.
Gosto do andar pelo asfalto depois da chuva.
Gosto das luzes dos postes ou da falta delas.
Gosto de como representam tão bem o estar à luz ou à sombra.
Gosto dos vapores, dos tremores.
Gosto da sensação de espaço, de liberdade.
Gosto de como percebo tão sutilmente os menores sons. 

“Aquele cachorro que passou e latiu. Uma janela indiscreta que fecha. Alguns amigos voltando da noite, praguejando sua felicidade a todos que dormem... Reparo como parecem mais felizes àquela hora. Uma felicidade que pode ser ouvida por todos que não estão ali. Passam.”

À noite depois das duas podemos ser tudo aquilo que não somos quando estamos acordados.
À noite depois das duas ouvimos melhor e falamos mais baixinho, para quem realmente importa.
À noite depois das duas vivemos esse sentimento de solidão tão sincero e junto ao peito que parecemos estar voltando pra casa em multidão.
À noite, depois das duas, nas ruas da cidade, nos encontramos com sonhos e verdades impossíveis de serem vistas ao dia.

Andando, nos encontramos conosco e com os outros, aguardando por um amanhecer de The Freewheelin' Bob Dylan.

STORTO... - 08-08-2012
The Freewheelin' Bob Dylan

Comentários

  1. Captou bem o melhor da madrugada. Texto massa. Abraços, amigo velho.

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  2. Te leio e ouço "Blowin' in the Wind", sopra um ventinho na noite e pronto, já não estamos sós.
    (*)

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